DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS: LANÇAMENTOS EM SALVADOR

 

Benedito Veiga - UCSal/UNEB-Campus IV

 

 

Este trabalho faz parte de um projeto maior que desenvolvo na minha tese de doutorado. O recorte aqui trata das estratégias empregadas pela mídia (jornais, revistas e televisão) na divulgação do livro Dona Flor e seus dois maridos[1], de Jorge Amado, com o objetivo de se formar um grande evento.

De início, assinalo que Dona Flor foi lançada em plena ditadura militar, em um período conturbado que desembocará no AI nº 5, em 1968, com a perda de todas as garantias de liberdade individuais; mas, dois anos antes, construía-se na Cidade do Salvador da Bahia de Todos os Santos[2] um grande acontecimento popular para essa narrativa amadiana.

Evidentemente que sendo a Bahia “periferia” do “centro” do poder econômico e cultural, que agora se centrava em São Paulo, e a perda de prestígio do Rio de Janeiro com a transferência do centro do poder político para Brasília, o primeiro lançamento deu-se na capital paulistana, inclusive sede da Livraria Martins Editora, a de Dona Flor. Os periódicos da época, pesquisados por mim, começam a construir o grande evento que se localizará na Bahia.

 Os lançamentos oficiais de Dona Flor obedecem ao encadear divulgado, sobretudo, pela mídia impressa, como, por exemplo, a Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro (então Estado da Guanabara), em 19 de maio de 1966, que divulga o calendário de lançamento do livro, indicando o dia 15 de junho, em São Paulo, o dia 17 de junho, no Rio e o dia 1º de julho, em Salvador. (TI, 19.5.66; I, 3)[3] Na mesma data da notícia, na capital baiana, Alaor, – pseudônimo de Giovanni Guimarães, amigo e colega de Jorge Amado, desde os tempos do Colégio Antônio Vieira -, confirma o fato via A Tarde e acrescenta que “No próximo dia 1º de julho, haverá festa grande na Livraria Civilização Brasileira, presentes muitos intelectuais e artistas do Rio e São Paulo, quando será o romance lançado na Bahia.” (AT, 19.5.66; 2)[4]

Esses três lançamentos maiores têm mais ampla divulgação. Os demais momentos de autógrafos indicados – entre eles o lançamento da Civilização e o lançamento da Pindorama, em Salvador – são provenientes de registros em periódicos locais, considerados com menor destaque.

Para a imprensa do “centro” cultural do país, entretanto, o que acontecia com os movimentos na “periferia” não era levado ao público: não foi encontrado por mim, no período pesquisado – de 1º de maio a 31 de julho de 1966 -, nos principais periódicos de São Paulo e do Rio, qualquer registro da efetividade desses três lançamentos da província, “marginais”, de Dona Flor.

A imprensa de São Paulo e do Rio não se importava com a repercussão do livro em outras capitais, quando isto deveria ser interessante para a própria vendagem de Dona Flor, cada estado retornando a ressonância para o “centro”, como forma de retroalimentação da propaganda para a venda do romance.

Dos lançamentos de Dona Flor, verificados em Salvador, o lançamento d’Ajuda, na seqüência cronológica nacional, é o quarto, porém é o primeiro na Bahia, o que o torna emblemático, porque fortemente envolvido com o hibridismo local, onde a própria natureza do texto ficcional é questionada como tal, onde o leitor não se sente como espectador, mas como atuante, um dos participantes dos fatos narrados. Enfim, todos participam como co-autores, opinando pela exclusão ou acréscimo de cenas e de personagens.

Importante é que o lançamento d’Ajuda aconteceu, sem respeito aos dogmas de “unidade e de pureza” dos modelos transpostos, aconteceu com seus crivos da “diferença” regional; foi antecedido e seguido por outros que, querendo ou não, sabendo ou sem saber, cumpriram seus papéis em relação a ele: divulgaram seu tema, Dona Flor, ou serviram de escoamento para seus transbordos.

O evento sucedeu na sede, hoje extinta, da Livraria Civilização Brasileira, localizada à Rua Padre Vieira nº 9, antiga Rua da Ajuda, nas imediações da Igreja do mesmo nome, considerada uma das mais antigas da colônia, e que tinha sido, parcialmente, demolida, no início do século XX, para permitir a passagem de bondes. O lançamento d’Ajuda é como se fora o oruncó da heroína amadiana, o momento do dia em que a iaô – a noviça, a inicianda – fala, dando nome a seu orixá. Aliás, a preparação do lançamento se deu como devia: nas cercanias deseus domínios – em Salvador, com alvoroço e expectativa; fora de seus terrenos – em outras plagas, com poucas referências, mas com o devido respeito e reverência, como comprovam as delegações vindas de fora, chegando para assistir a festa e participar das comilanças.

O lançamento só poderia ser na Civilização por ser a livraria mais respeitada e conhecida da cidade. Ocupava o trecho urbano mais visitado pela elite e pelos intelectuais; era na época um “point” para os jovens estudantes que queriam ser intelectuais.

Desde o início de 1966, antes do retorno de Jorge Amado da viagem que fizera com a família à Europa, antes mesmo da conclusão da escrita do romance e antes, sequer, da fixação de quaisquer datas para os eventos vinculados à ficção nascitura, já se ouviam rumores de possíveis comitivas ao provável lançamento d’Ajuda de Dona Flor, em Salvador. Em 1º de março, o Diário de Noticias, órgão dos Diários Associados – a Globo de então – noticia que, em meados de julho, “possivelmente, Jorge Amado lançará Dona Flor e seus dois maridos, juntamente com Zora Seljan, que virá a Salvador realizar uma tarde de autógrafos do estudo Histórias de Iemanjá”. (DN, 1.3.66; I, 5)[5]

Alaor, em sua coluna “Ronda dos Fatos”, em A Tarde de 28 de junho, reitera que, em Salvador, para a “festa literária” de 1º de julho, “muitos intelectuais virão do Rio e de São Paulo.” (AT, 28.6.66; 2)[6]. E, em 24 de junho, o Jornal da Bahia nomeia que virão para o lançamento em Salvador: “os editores José Martins – editor de Jorge, Diaulas Riedel – da Cultrix – e Jorge Zaar (sic) – da `Editora Zaar` (sic), os escritores Antônio Olinto e Zora Seljan, entre outros intelectuais.” (JBa, 24.6.66; 3)[7] Sem esgotar a relação de nomes de outras terras presentes ao acontecimento, o Diário de Notícias de 1º de julho, registra a presença dosr. Henry Senghor, embaixador do Senegal no Brasil, que “se encontra em Salvador para assistir, hoje, às 17 horas, na Livraria Civilização Brasileira, ao lançamento de ‘Dona Flor e seus dois maridos’, novo romance de Jorge Amado.” (DN, 1º.7.66)[8]

A presença de Dorival Caymmi não foi possível, tendo em conta o atraso do avião “Caravelle” que o traria do Rio para assistir ao evento. (JBa, 1º.7.66; 2)[9]

O acontecimento e as conseqüências do lançamento d’Ajuda serão relatados, mostrando como foram construídos o clima e as cores de Salvador aliados aos de recursos performáticos[10], para fazerem do evento o único, o irrepetível, o maior, o mais importante de todos: a aldeia local interessava-se em sintonizar com a global; Dona Flor era o meio e a mensagem.[11]

A construção do lançamento começou com antecedência. Um dos seus cúmplices foi Sylvio Lamenha que, na edição de 26-27 de junho do Diário de Notícias, comenta a entrevista ocorrida em seu programa “Plásticos no Vídeo”, na TV Itapuã, empresa igualmente “associada”, com a presença de personalidades locais “que são também personagens” de Dona Florcomo Genaro de Carvalho, Norminha Sampaio, Giovanni Guimarães, Mário Cravo Jr., Carlos Coqueijo, Walter da Silveira, Antônio Celestino, Luis Henrique Dias Tavares e muitos outros. E conclui, com seu entusiasmo peculiar:

 

Toda a semana hoje iniciada, aliás, será a ‘Semana de D. Flor’, livro que vai superar todos os records de vendagem de livro no Brasil, até hoje, podem anotar.Vai ser a maior tarde d’autógrafos da Bahia, a de Sexta próxima,[1º de julho], com a presença de Dorival Caymmi e de muitos nomes de relevo das Artes Visuais e da Literatura.” (DN, 26-27.6.66; II, 3)[12]

 

A nota é exemplar para eu descrever a preparação do lançamento d’Ajuda: mostra a procura da fusão de mídias – a jornalística e a televisiva – para a cobertura do evento; mostra pessoas da comunidade que, de alguma forma seus nomes foram usados na ficção e que se sentem, às vezes, efetivamente as próprias personagens na narrativa; mostra o rebuliço social com o próximo lançamento, provável arrebatador dos maiores índices possíveis, na área, ao menos local; mostra a vendagem de livros, com promessas de ser a campeã nacional; mostra a esperada presença de comitivas com personalidades de destaque.

A coluna “Crivo” do Jornal da Bahia, em 24-25 de julho de 1966, reitera as observações de Lamenha, insistindo que,oúltimo livro de Jorge Amado, Dona Flor,é a descrição da pequena classe média da província, de seus anseios, de suas mazelas, de seus tipos indefectíveis:

 

os luminares da província, ridículos mas nem por isso menos fascinantes, os `cérebros e poetas` que jamais transpuseram os limites da cultura estadual, devendo o reconhecimento de sua comunidade apenas a influência nos círculos administrativos do Estado – e sobretudo as três figuras principais: Vadinho, D. Flor e o Dr. Teodoro Madureira são caracterizações excelentes. Dir-se-ia que o romancista dá uma imensa e sonora gargalhada sobre a mesquinhez da nossa pretensiosa sociedade.”

 

A divulgação continuada de notícias pelos jornais tornava Dona Flor assunto de conversas: umas nervosas, outras amenas. A narrativa nascente era incluída, tranqüilamente, no dia-a-dia da sociedade. Todos esses olhares serviam de sustento para a preparação do lançamento d’Ajuda.

O clima de envolvimento criado propiciava a “atuação” do público, afastando o “distanciamento”, permitindo sentirem-se todos retratados em Dona Flor ou vendo, “cara-a-cara” – amigos ou desafetos –, todos eles “conhecidos” do convívio diário. Para a grande maioria eram essas as imagens que predominavam: a de uma “crônica picante, perspicaz, levando consigo nessa hilaridade toda a vasta legião de seus leitores”.(JBa, 24-25.7.66; III, 4)[13].

No entanto, os boatos do “festival Jorge Amado” já corriam há muito. É notório o ambiente de preparação de festas. O processo de propaganda do espetáculo da performance – o lançamento d’Ajuda – também se vincula à figura do autor transformado em ator, em persona e não a outra pessoa ou coisa. Anuncia-se um ator (autor) e seu desempenho; muitos concorrem para isso. É Salvador que se faz presente com “as cores alegres da paisagem tropical”, “uma cidade permanentemente em festa”. Anuncia-se: “uma festa para marcar época em nossos meios literários”; “rua embandeirada, banda de música”; “caravana de vários Estados”; “uma verdadeira festa popular”; “será dia de festa e gala na Bahia”; “Baianas de acarajé estarão lá”.

Tal clima de festividades é mostrado, por exemplos: em 19 de junho, no Diário de Notícias, Otacilio Fonsêca informa que, em Salvador, na apresentação de Dona Flor, em de 1º julho, segundo Dmeval Chaves, proprietário da Livraria Civilização Brasileira, “haverá uma festa para marcar época em nossos meios literários.” E complementa o livreiro que a presença de caravanas “de vários Estados darão características de verdadeira festa popular ao ato.” (SDN, 19.6.66; 2)[14] Na mesma linha, em A Tarde de 25 de junho, Hélio Simões vai adiante com o processo de euforia, referindo-se ao autor e sua obra: “Jorge Amado para quem já são inúteis os adjetivos, o nosso Jorge voz da terra, do mar, da gente e das próprias coisas da Bahia, intérprete dos seus encantos e exegeta dos seus mistérios, vai lançar um novo romance. (SAT, 25.6.66; 3)[15]

Como parte da construção performática, a existência ou não de convites para o espetáculo do lançamento d’Ajuda é provocante: parecia a todos, com voz na mídia ou impulsionadores para que os fatos se tornassem notícias, serem desnecessários, em Salvador, convites para o ato que registrasse a chegada de Dona Flor. Afinal, a história contada era um pouco de todos os membros da comunidade. E Jorge Amado é do conhecimento de meia Bahia, um dos grandes nomes da literatura baiana, envolvido com os acontecimentos artístico-culturais da terra. Tais idéias eram largamente propaladas.

Junot Silveira, colunista literário de A Tarde, em 18 de junho, manifesta-se a respeito escrevendo que são tantos os amigos do autor de Dona Flor, seus admiradores e leitores, que se tornaria quase impossível relacioná-los (AT, 18.6.66; 10)[16]; idêntico parecer é o do livreiro Dmeval Chaves, argumentando que não convidou ninguém: “Ou melhor, toda a Bahia foi convidada. Jorge Amado é um escritor do povo, e não teria cabimento uma tarde de autógrafos para poucos.” (AT, 28.6.66; 10)[17]

Já Otacílio Fonsêca do Diário de Notícias, também colunista literário, em 19 de junho, afirma que não haverá convites[18] para evitar omissões e informa, ainda, que, por tais razões, “os cartões – muito bonitos – foram cancelados.” (SDN, 19.6.66; 2)[19]

No depoimento de Dmeval Chaves, em A Tarde de 29 de junho, encontro o esclarecimento de que os convites não foram distribuídos: “Somente foram ofertados a pessoas de outros Estados e outros países a título de ‘souvenir’.” (AT, 29.6.66; 2)[20]

O tema de espetáculo não se desliga do evento. Em 30 de junho de 1966, o Estado da Bahia abre espaço para o fato e registra que o escritor Jorge Amado lançará amanhã, dia 1º de julho, em tarde de autógrafos, a partir das 17 horas, na Livraria Civilização Brasileira, “com a presença de altas figuras do mundo cultural brasileiro o seu novo romance Dona Flor e seus Dois Maridos cujo sucesso em todas as partes do país onde chegam os exemplares fazem-no um best-seller sem precedentes.” (EB, 30.6.66; 3)[21]

O deus-nos-acuda para o lançamento d’Ajuda nãoera só do setor privado, mas, igualmente, do setor público, como atesta o Jornal da Bahia, no dia do evento, 1º de julho: Dmeval Chaves “preocupava-se em comprar ventiladores e criar mais espaço em sua livraria antevendo ‘um número de pessoas que acorrerão ao lançamento, muito grande’”, ciente de que o espaço de seu ponto comercial correspondia ao de uma garagem para abrigar, aproximadamente, oito carros. O Diretor de Trânsito, o Coronel Edilberto Amorim previa, na véspera, “o engarrafamento do tráfego em todo o centro da cidade a partir das 17 horas de hoje quando Jorge Amado lançará na Livraria Civilização – à rua da Ajuda – o seu romance Dona Flor e seus Dois Maridos.” (JBa, 1.7.66; 2)[22].

Do espocar de notícias publicadas pelos diversos jornais de Salvador, no dia do lançamento d’Ajuda, em A Tarde, Carlos Coqueijo, no artigo “Jorge Oxóssi Amado”, refere à morada de Jorge Amado, no Rio Vermelho, sua criação das personagens, mesclada com dados do culto afro-brasileiro, articulando, fato que ainda era novidade para a terra, o erudito e o popular; Jorge seria como um grande tecelão:

 

É preciso não esquecer Jubiabá, o pai preto, que tem o poder nas mãos (...) Com ele irão Antônio Balduino, sem as suas luvas de box (...) e Zé Camarão, que lhe ensinou os segredos dos rabos de arraia e do violão. Augusta das Rendas diz que está vendo lobisomem mas vai sem medo E Felipe o Belo, o Gordo sempre rezando, o Sem Dentes, o Anão Viriato, saem todos da `Lanterna dos Afogados`, sob o comando do Capitão de Longo Curso Vasco Moscoso de Aragão e se unem ao grupo. (...) Todos vieram do ‘Farol das Estrelas’, onde combinaram encontro, tomaram um trago e quem pagou foi Quincas Berro d’Água, para quem `o impossível não há`.”

 

O chamamento das personagens amadianas anteriores é feito como se fosse um dever, uma obrigação de todos os já criados estarem presentes, no momento da chegada da mais nova iniciada – a nova iaô –, no instante de sua “nomeação”, no lançamento d’Ajuda: “Estão todos com o olho da piedade bem aberto, que hoje é dia de festa no peji [santuário de candomblé] de Dmeval, na rua da Ajuda, novos irmãos vão nascer nas estórias de d. Flor e suas complicações com os dois maridos.(AT, 1.7.66; 5)[23]

O lançamento d’Ajuda é como se fosse um ritual, onde as diversidades culturais se encontram, sob a apropriação da cultura negra majoritária pelo intelectual, branco ou pseudo, da elite que domina.

Tudo isso, sob a carapuça da ditadura militar, provinda do golpe que desmontou o governo de João Goulart e o que havia de democracia no país. A quartelada, então, se adestrava para se tornar mais feroz e repleta de desfaçatez.

No dia seguinte, 2 de julho, a imprensa de Salvador atesta o grande sucesso do lançamento d’Ajuda: A Tarde informa sobre o ocorrido no dia anterior, afirmando ter comparecido um público até hoje não registrado em lançamentos de livros em Salvador, quando o escritor Jorge Amado autografou, na Livraria Civilização Brasileira, ontem, das 17 às 19 horas, mil exemplares do seu 17º romance, Dona Flor. (AT, 2.7.66; 3)[24].

Também o Jornal da Bahia, na mesma data, comenta que cerca de três mil pessoas se comprimiam na Livraria Civilização e suas imediações, provocando a paralisação do tráfego na rua da Ajuda e engarrafamentos em todo o centro da cidade entre as 17 e 18 horas de ontem.

Nessa época, para o centro de Salvador, convergiam as principais ocupações de emprego; a rua Chile, paralela à rua da Ajuda, era aonde se localizavam as principais casas de comércio. Para se ter uma idéia, não existiam ainda as grandes avenidas de vales, a Assembléia Legislativa funcionava na Praça da Sé. Qualquer transtorno do trânsito, nas imediações e adjacências aonde se localizava a Livraria Civilização Brasileira, era desastroso para o fluxo de transportes em boa parte da Cidade: a Praça da Sé era, ainda, terminal de várias linhas de ônibus urbanos, procedentes de bairros centrais ou não, como: Nazaré, Barra, Saúde, Amaralina; a Ladeira da Praça, bem próxima à Rua da Ajuda, era parada de transportes coletivos, junto ao viaduto da Sé, para veículos via Baixa dos Sapateiros, como os da Liberdade, um dos pontos de maior concentração populacional da Cidade; o Terreiro de Jesus era ponto terminal das “lotações”[25] saídas da Lapinha, via Pelourinho.

Deu-se, pois, a agitação de boa parte da comunidade residente em Salvador, em um dia de sexta-feira, véspera do feriado estadual de 2 de Julho; no fim da tarde para o início da noite, ao deixar o trabalho, as pessoas foram, ao menos, surpreendidas pelo inusitado transtorno do tráfego, certamente motivo de conversas e curiosidades.

A notícia continua, publicando o periódico que o aglomerado de gente na rua da Ajuda fez parar o tráfego às 17 horas, “mas três guardas de trânsito controlaram a situação”. O público, entretanto, teve que ficar na rua ocupando metade da pista pois, dentro da livraria e nos passeios, não havia lugar para mais ninguém. O movimento de veículos por isso teve de ser feito com morosidade o que repercutiu em todo o centro da cidade provocando engarrafamentos. E atesta: “Desde as 14 horas já havia quem esperasse no interior da Livraria Civilização, guardando o seu lugar junto à mesa onde Jorge Amado autografaria o seu último livro.” (JBa, 2.7.66; 2)[26]

Para o que se anunciou, acontecia o esperado: “vai ser uma festa e tanto”; “vai ‘parar o trânsito’ na rua da Ajuda”; “será o maior acontecimento do ano”; “deverá constituir-se no maior acontecimento literário da Bahia e do Brasil neste ano”; “grande festa do povo”; “será por certo o maior acontecimento cultural e social da Bahia dos últimos tempos”.

Os colunistas sociais de plantão arrematam o lançamento d’Ajuda com ares performáticos:Guilherme Simões do Jornal da Bahia, em 2 de julho: “uma multidão incalculável que superlotava as dependências da livraria e ia até quase o meio da rua. Apesar do atraso do escritor que teve vários compromissos antes, os autógrafos se prolongaram à noite.” (JBa, 2.7.66; 2)[27]; Renot - pseudônimo de Reinaldo Marques, do Estado da Bahia, em 4 de julho: “Milhares de pessoas acorreram à Livraria Civilização Brasileira para prestigiar o novo romance do escritor baiano” (EB, 4.7.66; 3)[28]; Sylvio Lamenha, em 5 de julho: “O que foi a tarde d’autógrafos d’ontem? Impossível registrar tudo agora. Cobertura total (prometo-vos) na força.” (DN, 2-4.7.66; II, 3)[29]

As imagens da Bahia recebidas a partir Dona Flor deixaram lembranças nos festejos em homenagem às comitivas dos visitantes, por ocasião de seu lançamento em Salvador, constituindo-se num verdadeiro “calendário de eventos”, como se encontra registrado em jornais da época. Sylvio Lamenha, no Diário de Notícias de 5 de julho, comenta que o fim de semana foi todo Jorge Amado: “Recepções, nomes nacionais e internacionais, D. Flor homenageada em prosa e verso, uma cúpula intelectual e artística reunida em magníficas reuniões, tudo isso daria matéria para crônicas até o fim do mês.” (DN, 5.7.66; II, 3)[30] E JULY, no dia 5 de julho, noticia em A Tarde que “Continua o festival Jorge Amado. Cada dia uma recepção, cada noite um jantar e assim por diante.” (AT, 5.7.66; 8)[31]

Do que se encontra noticiado nos periódicos, indico, em ordem cronológica, os jantares ou recepções oferecidos às comitivas: em 30 de junho: recepção no apartamento de Antônio Celestino (banqueiro) – (DN, 5.7.66; II, 3)[32]; em 1º de julho: jantar em casa do casal Nair e Genaro de Carvalho (tapeceiro) – (AT, 1º.7.66; 8)[33]; em 2 de julho: jantar em casa do casal Zélia e Jorge Amado (também dia do aniversário de Zélia) – (DN, 2-4.7.66; II, 3)[34]; 3 de julho: jantar em casa do casal Luiza e Jenner Augusto (pintor) – (EB, 30.6.66; 7)[35]. Sem precisar a data, o Diário de Notícias, edição de 2-4 de julho, informa que o gravador Emanoel Araújo homenageou, com um jantar “os componentes da caravana cultural que veio do sul do país para o lançamento do livro de JORGE.” (DN, 2-4.7.66; II, 3)[36]

A performance avança pelos dias seguintes, incluindo até a vendagem do livro. No dia 2 de julho, A Tarde publica que o lançamento estava previsto para 5.000 volumes. Entretanto,“ao que apuramos, 1.000 vieram por via aérea e 4.000 que estavam sendo transportados por rodovia ficaram retidos em Entre Rios.” (AT, 2.7.66; 1)[37] O Jornal da Bahia, na mesma data, flexiona o informe, mas confirma a falta de exemplares: “O caminhão que traria outros 4 mil livros à Civilização Brasileira quebrou em Feira de Santana e Jorge Amado só vendeu os mil volumes que havia no estabelecimento, ao preço de Cr$ 8 mil cada.” (JBa, 2.7.66; 1)[38]

Eis, aí, o nascedouro aparente da necessidade de mais lançamentos em Salvador, notícia, aliás, já propalada, enquanto ainda ocorria o lançamento d’Ajuda.

O lançamento d’Ajuda, com suas especificidades performáticas, não perde seu carisma e seu apelo, ao menos no enquadramento de Salvador. Ele mantém a quebra de “distanciamento” – autor[ator]personagens/cenários/público – presente e “necessário” na recepção de Dona Flor, com a presença de membros da comunidade, “sentindo-se” envolvidos, reencontrando-se ou revendo conhecidos do dia a dia, em situações as mais diversas, mas tão próximas de si mesmo.

         Durante as semanas seguintes, a aquisição do livro, ritualizada, transforma-se em prenda, privilégio de ter em mãos, uma “recordação” muito cara, prazer de possuir, para pessoas comuns, para as pessoas/personagens, a narrativa de sua própria história, “autografada” por Jorge Amado, seu autor[ator].

Malgrado todos os desejos e todos os incômodos, o importante é que a insuficiência de estoque de Dona Flor esgotou, rapidamente, os exemplares existentes, com a procura continuada, o que gerou grande efeito mercadológico, com conseqüências performáticas e, sobretudo, rentáveis para o comércio livreiro.

O lançamento da Civilização, o segundo a ocorrer na província, marcaria o primeiro aniversário da transferência da sede da Livraria Civilização Brasileira, da Rua Chile para a Rua Padre Vieira; o lançamento da Pindorama, o terceiro a suceder, celebraria em 29 de julho o primeiro aniversário de instalação da nova livraria[39]. Tais comemorações serviram, também, de pretextos para os lançamentos, que, de fato, foram escoamentos e complementações aos transbordos do lançamento d’Ajuda, como já indicavam os periódicos do dia após.

Como se saber da espontaneidade do surgimento dos dois outros lançamentos na Cidade, sem matutar sobre performance, propaganda e marketing? A divulgação de datas foi ato contínuo e os motivos para que acontecessem os eventos nos dias marcados já existiam, antes do lançamento d’Ajuda.

O Estado da Bahia, órgão de divulgação mais popular, ligado aos Diários Associados, comprova, em 15 de julho, a realização do lançamento da Civilização, um ato coletivo do qual participaram, dentre outros, os escritores: “Jorge Amado, Wilson Lins, Walter da Silveira, Ariovaldo Matos, Walfrido Moraes, Guido Guerra, Sônia Coutinho, Florisvaldo Mattos (sic) e outros.”(EB, 15.7.66; 5)[40]

O lançamento da Pindorama, acontecido à Rua Horácio César nº 2, loja l, Mercês, sede da livraria – hoje extinta – teve seu registro noticiado em vários periódicos, entre eles o Jornal da Bahia, em 30 de julho, onde leio que: “Jorge Amado autografou, ontem à noite, na Livraria Pindorama, o romance Dona Flor e seus dois maridos para mais de 300 pessoas reafirmando assim a sua posição de escritor de grande público.” (JBa, 30.7.66; II, 5)[41]

Foi assim que, em Salvador, soaram os adjás[42] em 1966, quando da chegada de Dona Flor.

 

 

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Jornais consultados para este ensaio:

 

CORREIO DA MANHÃ. Rio de Janeiro: de 1º mai. a 31 jul. 1966.

DIÁRIO DE NOTÍCIAS. Salvador: de 1º jan.a 31 dez.1966.

DIÁRIO DE SÃO PAULO. São Paulo: de 1º mai. a 31 jul. 1966.

FOLHA DE S. PAULO. São Paulo: de 1º mai a 31 jul. 1966.

JORNAL A TARDE. Salvador: de 1º jan.a 31 dez. 1966.

JORNAL DA BAHIA. Salvador: de 1º jan. a 31 dez. 1966.

JORNAL DO BRASIL. Rio de Janeiro: de 1º mai. a 31 jul. 1966.              

JORNAL DO COMÉRCIO. Rio de Janeiro: de 1º mai. a 31 jul. 1966.

JORNAL ESTADO DA BAHIA. Salvador: de 1º jan. a 31 dez. 1966.

O ESTADO DE S. PAULO. São Paulo: de 1º mai. a 31 jul. 1966.

TRIBUNA DA IMPRENSA. Rio de Janeiro: de 1º mai. a 31 jul. 1966.

 

 

Legenda – Jornais ou Periódicos:

 

Salvador

 

Jornal A Tarde – AT

Suplemento de A Tarde – SAT

Diário de Notícias – DN

Suplemento do Diário de Notícias – SDN

Estado da Bahia – EB

Jornal da Bahia – JBa

 

Rio de Janeiro (Guanabara)

 

Tribuna da Imprensa – TI

 

 

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Coluna – C

Coluna/artigo –C/A

Coluna de arte – Ca

Coluna de literatura – Cl

Coluna de sociedade – Cs

Notícia – N



[1] Da segunda citação em diante, essa narrativa será denominada apenas Dona Flor, exceto quando se tratar de transcrição de documento.

[2] Da segunda citação em diante, o nome da cidade será escrito apenas Salvador.

[3] Hélio FERNANDES. Fatos e rumores, C.

[4] ALAOR. Ronda dos fatos, C.

[5] NOTÍCIA DE REDAÇÃO. Equipe associada informa, C.

[6] ALAOR. Ronda dos fatos, C.

[7] NOTÍCIA DE REDAÇÃO. Jorge lança dia 1º, N.

[8] NOTÍCIA DE REDAÇÃO. Senghor fala do livro que Jorge Amado lança hoje na Civilização Brasileira, N.

[9] NOTÍCIA DE REDAÇÃO. Jorge quer intelectuais defendendo direitos e liberdades democráticas, N.

[10] As observações sobre performance tomam por base COHEN, Renato. Performance como linguagem: criação de um tempo-espaço de experimentação. São Paulo: Perspectiva: EDUSP, 1989.

[11] Referências às idéias de MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. Trad. Décio Pignatari. 4. ed. São Paulo: Cultrix, 1974.

[12] [Sylvio LAMENHA]. HI – SO, Cs.

[13] NOTÍCIA DE REDAÇÃO. Crivo, C.

[14] Otacílio FONSÊCA. Livros & livrarias, Cl.

[15] SIMÕES, Hélio. Literatura & arte, Cl.

[16] SIVEIRA, Junot. Livros, Cl.

[17] PINTO, Carlos. Artes & shows, Ca.

[18] No arquivo da Fundação Casa de Jorge Amado, encontrei exemplares do convite para o lançamento d’Ajuda, desenhado por Emanoel Araújo e Clóvis Graciano.

[19] FONSÊCA, Otacílio. Livros e livrarias, Cl.

[20] NOTÍCIA DE REDAÇÃO. Lançamento do livro de Jorge Amado será maior acontecimento do ano, N.

[21] NOTÍCIA DE REDAÇÃO. Jorge Amado lança amanhã Dona Flor e seus 2 Maridos em grande festa do povo, N

[22] NOTÍCIA DE REDAÇÃO. Amorim preocupado com o lançamento de D. Flor por causa do trânsito, N.

[23] Carlos COQUEIJO. Jorge Oxóssi Amado, C/A.

[24] NOTÍCIA DE REDAÇÃO. Jorge Amado lança D. Flor, N.

[25] Lotação: pequeno veículo de transporte coletivo, comportando até 10 ou 12 passageiros, todos sentados.

[26] NOTÍCIA DE REDAÇÃO. Dona Flor engarrafa trânsito: 3 mil pessoas superlotam a livraria, N.

[27] Guilherme SIMÕES. Sociedade, fatos e gente, Cs.

[28] RENOT. Notícias de Renot, Cs.

[29] [Sylvio LAMENHA]. HI – SO, Cs.

[30] [Sylvio LAMENHA]. HI – SO, Cs.

[31] JULY. Sociedade, Cs.

[32] [Sylvio LAMENHA]. HI – SO, Cs.

[33] JULY. Sociedade, Cs.

[34] [Sylvio LAMENHA]. HI – SO, Cs.

[35] RENOT. Notícias de Renot, Cs.

[36] [Sylvio LAMENHA]. HI – SO, Cs.

[37] NOTÍCIA DE REDAÇÃO. Jorge Amado lança D. Flor, N.

[38] NOTÍCIA DE REDAÇÃO. Jorge estoque esgotado, N.

[39] Em JORGE AMADO 80 ANOS DE VIDA E OBRA, publicação da Fundação Casa de Jorge Amado, o segundo lançamento de Dona Flor em Salvador está com a data errada - escrita como 16 de julho , na página 65, e não, corretamente, como 14 de julho - e sobre o terceiro lançamento não há referência.

[40] NOTÍCIA DE REDAÇÃO. Tarde de autógrafos, N.

[41] Lázaro GUIMARÃES. Livros, Cl.

[42] Adjá: Pequena campa que a mãe agita a altura da cabeça das filhas para provocar a chegada dos orixás.